Vestígio é permanência
Na Toca Hub, Seis Souza apresenta trabalhos que atravessam terra, descarte e memória a partir de sua pesquisa no Jardim Gramacho
No fim de março eu me peguei olhando para trás com a sensação de que tinha vivido muitos meses dentro de um só. Março foi atravessado por experimentações. Na arte, testei caminhos, errei, voltei, refiz. No amor, me permiti sentir com mais presença, sem tanta defesa. Na vida profissional, vivi esse lugar do quase CLT, esse meio termo entre estabilidade e criação, onde a gente aprende a negociar tempo, desejo e sobrevivência. Foi um mês de movimento intenso, de risco e de escuta. Um mês onde plantar deixou de ser metáfora e virou prática.
E então abril chegou. E logo no seu segundo dia me apresenta uma oportunidade concreta de mostrar o que venho cultivando desde agosto do ano passado. A exposição na Toca Hub nasce desse processo contínuo, dessa insistência em permanecer criando mesmo quando tudo parece incerto. Ela reúne obras que foram gestadas em diferentes camadas da minha trajetória recente, especialmente durante a residência artística no Museu do Amanhã em 2026, e também na experiência da Galeria Efêmera, onde a pesquisa ganha corpo em trânsito, em deslocamento, em relação direta com o território.
É nesse contexto que eu mergulho no Jardim Gramacho. Não apenas como lugar geográfico, mas como território afetivo, político e ancestral. O Jardim Gramacho é onde muitas histórias começam, inclusive a minha. É onde o trabalho com o resíduo, com o lixo, com o reciclável, deixa de ser apenas matéria e se torna linguagem. É também onde a história do meu pai atravessa a minha prática, onde memória e matéria se confundem, onde a terra carrega marcas de tudo que foi descartado e de tudo que ainda insiste em viver.
As obras que apresento partem desse chão. Elas investigam o que permanece depois do descarte. O que fica quando tudo parece ter sido deixado para trás. Nesse percurso, encontro também a escrita da pesquisadora Christina Sharpe, que atravessa meu processo no final do ano. No livro No Vestígio, Sharpe nos convida a pensar o vestígio como aquilo que permanece, que insiste, que se recusa a desaparecer. O vestígio é rastro, é marca, é memória que continua operando no presente. É aquilo que não se apaga completamente, mesmo quando tentam silenciar.
Esse encontro não é apenas teórico. Ele reorganiza a forma como eu olho para o meu próprio trabalho. Porque entender o vestígio é também entender que os ciclos não se fecham. Como nos ensina Antônio Bispo dos Santos em A Terra Dá, a Terra Quer, a vida não é linha reta. É começo, meio e começo de novo. É continuidade. É retorno. É transformação constante.
É nesse lugar que a exposição se constrói. Ela começa na terra. Uma terra que é viva, que é memória, que é conflito e que é cura. Depois ela passeia pelos objetos perdidos, pelos materiais descartados que carregam histórias invisibilizadas. Há um percurso que passa pelo processo de ser do Jardim Gramacho, pelas camadas de existência que esse território abriga. E, por fim, a exposição chega no vestígio. Esse espaço onde todas essas memórias e sentimentos se encontram.
Falar de casa é sempre delicado. Porque casa não é só abrigo. Casa é também tudo aquilo que nos formou, que nos atravessou, que nos marcou. E é nesse espaço do vestígio que eu consigo reunir essas camadas. É lá que encontro aconchego. É lá que encontro paz. E é a partir desse vestígio que consigo imaginar outras formas de ver, de existir e de criar.
Essa exposição é, portanto, um convite. Um convite para caminhar por essas camadas comigo. Para olhar para o que foi descartado e reconhecer potência. Para entender que o fim nunca é só fim. Que sempre existe algo que permanece, que resiste, que se transforma.
A ocupação fica em cartaz por 15 dias, a partir de amanhã, na Toca Hub. Te convido a chegar, a percorrer, a sentir. Porque o que está ali não é só obra. É processo, é memória, é território. E, sobretudo, é a tentativa de transformar vestígio em possibilidade.



